Clínica fenomenológica: Terapia situacional e mal-estar contemporâneo
- Cyril Regnaud
- 10 de abr. de 2021
- 8 min de leitura
Atualizado: 11 de fev. de 2022
Às, e aos, colegas do curso de especialização em Psicologia Clínica Fenomenológica Existencial: durante às aulas, vimos, dentre outras coisas, a importância da historicidade e da técnica para compreender as questões psi.
Acontece que há uns três anos atrás traduzi um livro que pode ajudar muito a compreender isso de maneira mais concreta, com um possível desdobramento na clínica: “Clínica do mal-estar – A psi diante dos novos sofrimentos psíquicos”, disponível aqui, do Prof. Dr. Miguel Benasayag, filósofo, psicanalista de orientação fenomenológica existencial e pesquisador em epistemologia. Foi também um resistente durante a ditadura argentina: um certo posicionamento ético-político atravessa seu pensamento...
Nesse livro, ele apresenta sua análise do contexto epocal no qual estamos inseridos (incluindo o fenômeno de hibridização homem-artefato) e propõe o que ele chama de Terapia Situacional, com um toque Espinozista, para tentar responder ao mal-estar contemporâneo.
Para quem já não tenha lido, há neste blog uma pequena entrevista e um manifesto do mesmo autor.
A seguir, disponibilizo dois pequenos capítulos no intuito de ajudar você na tomada de decisão 😊
Para quem vier a adquirir o livro: é preciso tomar em conta duas correções que não foram feitas na versão atual:
p. 62, antepenúltima linha, uma expressão francesa foi difícil de traduzir. Em vez de “Por acaso ...”, acredito que a expressão “Interessante...” fica melhor.
p. 102, antepenúltima linha, substituir “autodestruir” por “autoproduzir”. Foi um erro de atenção.
Caso alguns de vocês se identifiquem com a proposta do autor, podemos eventualmente pensar mais tarde em:
algum grupo de estudo ou discussão
um mini curso: ano passado, dei um (7-8 encontros de 2h) a quatro colegas. Procurei apresentar o pensamento do Miguel a partir deste livro, ampliando com outras contribuições dele (outros livros e seminários) e colocando em perspectiva suas ideias com o tema do sofrimento no trabalho (os horrores organizacionais que enlouquecem).
uma troca com o próprio Miguel, dependendo de muito fatores mas quem sabe é possível...
A importância de contextualizar os problemas psi
Como já entendido, uma terapia do acolhimento não é centrada no indivíduo, mas na situação. Assim, outro dos eixos essenciais da terapia situacional é a contextualização dos problemas psi. Em um famoso texto, Hegel escreve que o que é “concreto” é sempre o sistema, o contexto, enquanto objetos um pouco “abstratos” – em relação ao sistema – são impossíveis de compreender no seu imediatismo (6). Ele toma o exemplo de um artigo escrito por um jornalista após a publicação da sua Lógica (1812-1816). Seu autor ironizava esta obra, afirmando: Sr. Hegel dá conta do universo, das estrelas, da matéria e do espírito, mas o que diria concretamente sobre minha pena? Com isso, Hegel respondeu que a pena do jornalista era um elemento abstrato demais para dizer qualquer coisa, posto que descontextualizada demais e separada de um sistema ou de uma forma de que poderia emergir um sentido.
(1) Friedrich HEGEL, Qui pense abstrait ?, Hermann, Paris, 2007.
Na prática clínica, os psis se encontram muitas vezes confrontados por esse tipo de problema: a pessoa chega com uma problemática “concreta” que a atrapalha, e até a impede de viver, e ela pede ao clínico para intervir. Ora, a problemática ou o sofrimento são abstratos demais, assim como o paciente como indivíduo. Na terapia situacional, a questão da contextualização é, portanto, absolutamente decisiva, até o ponto em que o paciente-indivíduo se torna, de maneira talvez contraintuitiva, um elemento a mais na situação a compreender. Do “acontece isso comigo” em direção à compreensão do “acontece”...
Imaginemos uma situação banal na consulta psi, constituída por um toxicômano, sua família, amigos, o dealer etc. O mais comum será pensá-la como um problema individual, o da “toxicodependência”. Ou, então, em termos um pouco mais “sociais”, podemos nos perguntar o que fazer com a circulação da droga, com os dealers etc. Em todo caso, contudo, pensaremos e agiremos em termos de um problema a resolver, ou pelo menos a assumir. Ora, o paciente drogado remete o terapeuta situacional à questão do contexto “concreto” que permite ler essa situação “abstrata”. Para contextualizar o drogado, há que, nem mais nem menos, mudar o foco permitindo a leitura da situação. Podemos, por exemplo, começar assim: na atual economia globalizada, uma parte considerável dos fluxos financeiros internacionais é de “capitais negros”, correspondendo à circulação da droga, às vendas ilegais de armas, ao dinheiro da corrupção etc.; e sabemos que é impossível que o sistema econômico mundial sobreviva a uma muito hipotética “lavagem” pela força dessa massa de dinheiro negro. Onde vemos que, apenas com essas duas considerações contextuais, nosso “problema” muda radicalmente de sentido, assim como de perspectiva. Que haja toxicômanos em nosso mundo, é normal. O toxicômano não é um acidente, mas um “modo de ser”, uma forma da realidade atual. Com seu dealer e seu entorno, ele é uma manifestação de um dispositivo mundial bem real, não se tratando de um comportamento aberrante que nós, como bons clínicos, deveríamos procurar “resolver”.
Isso significa que nada deve ser feito ou, pior ainda, abandonar a clínica para tentar, mais uma vez, mudar a ordem do mundo? A resposta é não: conhecer o mais possível o sistema no qual estamos não apenas não é o caminho em direção à impotência, mas permite começar a conhecer as possibilidades reais de um agir. Dito de outra maneira: é sair do “primeiro gênero” de conhecimento (Espinoza), essa posição passiva na qual conhecemos apenas por aquilo que nos afeta, para ir em direção ao “segundo gênero” de conhecimento, onde começamos a conhecer pelas causas.
Na clínica, isso significa que o “todo” do sistema deve ordenar nossa leitura da problemática “local”. É nesse gesto – pensar e compreender o todo na parte – que reside a possibilidade de não estar enganado por uma suposta liberdade de agir, cuja ilusão vem do único fato de desconhecer suas correntes. A terapia situacional, aquela que tenta estar à altura de nossa época, deve abrir a consulta ao mundo. Não para dissolver a relação clínico-paciente, mas para que esta relação não desapareça, ou atrás das considerações personalistas que procuram a causa de tudo na mochila furada dos “miseráveis pequenos segredos” (Deleuze), ou na eliminação de toda singularidade por tratamentos modulares farmacêuticos ou outros, que viram as costas, ao paciente e ao mundo, posto que orientados por modelos estatísticos abstratos e normalizadores.
Voltamos ao caso da Marie para ilustrar o que entendo por conhecer as possibilidades reais de um “agir” graças à contextualização de um problema psi. Marie não é um caso isolado. Na época em que “se descobre” a pedofilia do seu avô, uma verdadeira caça aos pedófilos, reais ou imaginários, havia sido iniciada. A narrativa de Marie é, portanto, induzida por uma realidade social e, para compreender o que lhe aconteceu, uma leitura pessoal do seu caso não basta, é preciso contextualizá-lo: “Estávamos na época em que...”. Ora, isso muda a clínica, permitindo compreender que Marie foi, ela também, “vítima”, assim como seu avô, mesmo que em um lugar diferente, de uma espécie de absurda erotização da infância que aconteceu naqueles anos. Não se trata de justificar as mentiras da menininha, mas de compreender pelas causas – no segundo gênero de conhecimento. E isso determina a reflexão sobre os possíveis... A partir daí, como Marie poderá consertar? Será que é possível tornar pública sua situação para permitir um conhecimento sobre as causas sociais desses desvios? Será que ela pode participar disso? Tantas perguntas que abordamos com ela na terapia e que permitirão, talvez, ao mesmo tempo que um desdobramento de possíveis concretos, uma reparação e uma emancipação.
Ajudar o paciente a “conhecer pelas causas”
A exigência de contextualização implica, portanto, o esforço do terapeuta para ajudar o paciente a “conhecer pelas causas”. Trata-se aí de um sentido do conhecimento de si que perdemos com a modernidade, mas que era comum para os gregos da Antiguidade. Para este povo, conhecer-se não significava efetivamente conhecer as características do “miserável pequeno segredo” de cada um. “Conhece-te a ti mesmo” significava nos conhecer no mundo e conhecer como o mundo se manifesta em nós. No mesmo espírito, a terapia situacional, pressupõe ajudar o paciente a ir na direção do conhecimento do segundo gênero: conhecer as causas pelos processos, e não apenas pelo que o afeta passivamente. Dessa forma, a terapia situacional origina um processo de dessubjetivação. Nós, terapeutas, devemos acompanhar nosso paciente em direção a um conhecimento que não é saber consciente, mas experiência, permitindo-lhe assumir que o que lhe acontece, acontece, possibilitando-lhe, assim, sair da armadilha narcísica, que consiste em que sua história pessoal seria sua história “bem guardada”.
Todos nós conhecemos efetivamente essa tendência desoladora a “abrir seu coração” para outra pessoa, contando-lhe seus pequenos defeitos, penas e frustrações. Cada um permanece, então, no seu pequeno mundo fechado e imaginário, operando um tipo de “elenco” inconsciente no qual nunca se encontra o outro, mas alguém que pode preencher o papel desejado na sua fantasia. Ora, na realidade, tudo o que me acontece – mesmo o que sinto de mais íntimo – poderia acontecer da mesma maneira a um homem (ou mulher) da minha idade, tendo minha vivência. Falar muito intimamente de mim implica, portanto, a expressão de uma articulação com o mundo, a história, a arte, a política...
Ora, infelizmente, na maioria das terapias, tudo acontece como se um motorista que deve ir de Paris a Marselha falasse apenas do seu carro, jamais das paisagens que ele atravessa, da maneira pela qual ele é afetado e afeta as diferentes situações. Os homens e as mulheres percorrem cegamente a estrada, centrados no seu veículo, considerando o percurso uma série de acidentes mais ou menos felizes ou infelizes. Em certo momento, porém, é preciso poder se dizer: “Abstração feita ao estado do meu carro, o objetivo é o percurso”. Como clínicos, é verdade que devemos, às vezes, fazer o papel de mecânicos. Mas o erro fundamental da psi consiste em fazer esquecer o percurso para se focar no carro.
Com essa metáfora, no entanto, não quero dizer que devamos considerar o carro a história pessoal e o percurso a grande história: tal separação ficaria abstrata. O que chamamos, pois, de “grande história” se manifesta apenas sob formas diversas e variadas na vida concreta dos seres humanos. Nada é mais o efeito da grande história do que esse tipo de discurso: “Eu me foco nas minhas pequenas coisas, quero ser feliz, não me meto em nada”. Esta crença no fato de poder viver “no seu quadrado” é com certeza fruto da época. O egoísmo individual que ela reflete é imaginário. Nas sociedades massificadas e alienadas, milhões de homens acreditam, ao mesmo tempo, com as mesmas palavras, na mesma ideologia. De vez em quando constatamos, em um ou outro paciente, como que um estremecimento desejante de tentar transbordar da gaiola a história pessoal. Ele começa por se dizer: “Em qual mundo vivo? Esta manhã vi policiais maltratarem ciganos, a polícia francesa é a mesma que a do Velódromo de Inverno de Paris etc. “. Esse tipo de transbordamento, porém, coincide infelizmente, em geral, com o encontro de um parceiro extraconjugal que faz que, como em uma triste peça de teatro cômica, todo excesso desejante entre rapidamente no circuito disciplinar das pequenas histórias a três, quatro ou cinco... A relação entre pequena e grande história é assim parecida com a famosa fita de Moebius, na qual cada ponto interior corresponde a um ponto oposto exterior. A pequena e a grande história são tecidas com a mesma estofa.
Tendo eu mesmo tido a ocasião de ser varrido pela grande história, pude experimentar que as únicas margens de ação possíveis dependem, então, do conhecimento do contexto no qual evoluímos. Ter sido uma “folha na tempestade” ajuda certamente a compreender as possiblidades de agir e o fato de que elas são ligadas à capacidade de excentrar-se de si na percepção do dispositivo nos incluindo. Dessa forma, nunca pensei que os ditadores Videla e Pinochet me faziam pessoalmente mal, pois não era difícil compreender por que aprisionavam e torturavam pessoas como eu. Esse tipo de compreensão é a condição para poder agir, inclusive na vida dita “pessoal”. Trata-se, por exemplo, de compreender que, em um dispositivo tal, meu amigo faz coisas assim: ele não me faz alguma coisa. Sair da intersubjetividade é a condição para desenvolver tangentes na repetição e na destruição.
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